Revista Placar

Mário Sérgio, o craque das sombras

De uma forma ou de outra, Mário Sérgio passou a vida evitando o protagonismo. Nem quando morreu brilhou como merecia

Por: Sérgio Xavier Filho

Mário Sérgio nos tempos de São Paulo| J.B. Scalco
Mário Sérgio nos tempos de São Paulo | Crédito: J.B. Scalco
Nem no dia de sua morte Mário Sérgio Pontes de Paiva teve o destaque que merecia. Em vez das manchetes, pé de página. Mário Sérgio partiu em 28 de novembro com outras 70 pessoas no maior desastre do futebol mundial e na maior tragédia do jornalismo brasileiro. A queda do voo da Chapecoense desviou o foco dos personagens, minimizou os dramas individuais. Afinal, um clube inteiro que disputava a primeira final internacional estava se desintegrando. Mário merecia mais páginas com suas histórias, generosos espaços nos programas esportivos com seus lances. Não houve isso.

De certa forma, foi assim em sua vida. Ele tinha bola, inteligência e postura para estar entre os gigantes do futebol. Só que não. Foi grande, não gigante, como deveria. Apenas seis jogos pela seleção brasileira. Nenhuma Copa do Mundo nas costas. Como assim? Mário começou no futsal, a bolinha pequena grudava em seu pé esquerdo. Quando migrou para os gramados, a habilidade e a genialidade foram juntas. O problema era o gênio. Mário não tolerava a burrice, a ruindade. Tinha problemas com excesso de disciplina. Não durou no Flamengo, foi emprestado ao Vitória. Ali, com liberdade, se soltou. Primeiro como ponta-esquerda, depois como meia, ganhou duas Bolas de Prata da Placar.

Voltou ao Rio valorizado. Mas no Fluminense não foi protagonista. Havia um Rivellino. No Botafogo, logo depois, havia um Paulo César Caju. Foi parar no Inter e teve o privilégio de ser campeão brasileiro invicto em 1979. Jogou demais, sua canhotinha estava afiada. Só que havia um camisa 5 de cabelos de anjo jogando ainda melhor. Falcão voava, de novo Mário não era o protagonista. Depois, resolveu seguir em sua vida de nômade da bola e topou a proposta de jogar em um ótimo São Paulo que tinha Oscar, Renato e Serginho. Ali se desenhou também uma seleção brasileira para ele. Só que na hora da convocação o mineiro Éder estava se destacando mais. Mário sobrou, não foi para a Copa de 82 na Espanha.

O maior momento de sua carreira como jogador veio no ano seguinte. O Grêmio tinha vencido a Libertadores em 1983 e iria disputar o Mundial Interclubes contra o Hamburgo. O treinador Valdir Espinosa exigiu a contratação de Mário Sérgio para resolver o meio-campo gremista, que não teria mais Tita, um dos destaques da Libertadores. Espinosa e Mário tinham sido companheiros de clube e de farra nos tempos de Vitória da Bahia. O vesguinho (apelido recebido pela mania de olhar para
um lado e tocar a bola para o outro) veio e qualificou o Grêmio, que venceu o Hamburgo. Mário, mais uma vez, gastou a bola e viu alguém brilhar mais do que ele. Renato Portaluppi marcou os dois gols do título e levou o carro que era dado pela organização do torneio ao melhor em campo.

Mário Sérgio ainda voltaria ao Internacional, passaria por Palmeiras, Ponte Preta, Botafogo de Ribeirão, Bahia e Bellinzona da Suíça. No Palmeiras, em 1985, houve a mancha do doping, em sua urina apareceram vestígios de cocaína. Mário negou o consumo, falava de uma suposta armação.

Como treinador, fez bons trabalhos no Figueirense, Atlético-PR e Corinthians. Só que toda vez que chegava perto de uma conquista algo dava errado. No Corinthians, chegou a manter uma longa invencibilidade de 15 jogos no Brasileiro de 1993. Perdeu justamente quando não podia perder, não chegou à final do campeonato. Virou comentarista de televisão, passou por Bandeirantes, SporTV, Fox e
trouxe de volta algumas características dos tempos de jogador. Não tolerava a falta de qualidade, muitas vezes espinafrava os próprios eventos das emissoras em que trabalhou.

Mas talvez nada defina melhor Mário Sérgio do que sua despedida do futebol, em 1987. Ele vestia a camisa do Bahia, já com 37 anos, e era o principal homem na vitória parcial diante do Goiás. No intervalo, desceu mais rápido para o vestiário. Quando os companheiros perceberam, ele estava de banho tomado, vestido. Falou algumas palavras e avisou que estava se despedindo ali mesmo, sem festa, quase que saindo pela porta dos fundos. Mário Sérgio se despediu da vida da mesma forma. Sem a pompa que alguém com seu talento merecia.

Fonte: Sérgio Xavier Filho